Ao citar este trabalho, use a seguinte referência:

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GUIMARÃES, C. P. 2008. Tags: palavras-chave em blogs. In: 2º Simpósio Hipertexto e Tecnologias na Educação. Anais. Recife: NEHTE-UFPE. Disponível em http://www.cleberpacheco.com.br

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TAGS: PALAVRAS-CHAVE EM BLOGS

 

Cleber Pacheco Guimarães[1]

(UFPE)

cleber.guimaraes@gmail.com

 

 

RESUMO: Há atualmente diversas pesquisas na área do hipertexto e dos gêneros digitais. Entretanto, pouco fora escrito sobre tags na literatura nacional especializada. O intuito deste trabalho é estudar tags para blogs, bem como o processo de escolha de tais palavras para as postagens em blogs. Foi possível verificar que há critérios a serem seguidos para a adequada seleção das tags.

 

PALAVRAS-CHAVE: letramento digital, blogs, tags.

 

 

ABSTRACT: There are many researches concerning to hypertext and digital genre nowadays. However few papers are about tags in Brazilian specialized literature. The intent of this article is to study weblog’s tags, and whether there are some criteria in their election. It was possible to conclude that there are some criteria to be respected to an adequate selection of these words.

 

KEYWORDS: Digital literacy, blogs, tags.

 

 

0. Introdução

 

            O propósito deste trabalho é estudar as palavras-chave para postagens em blogs e como se dá a escolha de tais termos. Após uma explanação sobre estas palavras (tags) e seu funcionamento, tentaremos averiguar se há procedimentos ― critérios ― recorrentes para a eleição destes termos. A análise será feita à luz da Semântica, da Lexicologia e da Lingüística Sistêmico-Funcional ― no uso dos termos processo (para verbos) e participantes (para os sujeitos, objetos e predicativos relacionados a esses verbos) ―. Concomitantemente, serão sugeridas algumas propostas de trabalho com tags em sala de aula.

 

1. Tags: sua relevância no mundo digital e no real            

 

Como somos lingüistas, e não estudiosos de computação, a definição que daremos a tag será, a priori, bem simplória, porém suficiente. Tags são as palavras-chave para textos, fotos, sons, enfim, arquivos da internet. Interessa-nos, nesse artigo, as tags para postagens de blogs, isto é, as palavras-chave que são escolhidas para textos publicados em blogs. As tags também são normalmente encontradas com a denominação etiquetas ou marcadores. É interessante, pois as palavras-chave, de certa forma, etiquetam o produto textual, informando ao “consumidor” o conteúdo a ser encontrado no texto.

Afirmamos que este estudo é relevante por dois motivos: a) a dificuldade encontrada por alunos nas escolas ― e por vezes, na graduação ― para identificar as palavras dos eixos semânticos que constituem a unidade dos textos, em outras palavras, a dificuldade para selecionar as palavras-chave adequadas; o segundo motivo é b) a própria utilização das tags, cujos adeptos estão cada vez mais presentes. É importante salientar que a busca ― na internet ― quando feita por tags, difere da busca executada no Google ou em outros mecanismos chamados sintáticos, de modo que o conhecimento sobre tags pode fazer com que os alunos busquem ― e propaguem ― conteúdo na internet mais eficientemente. Falemos um pouco mais sobre isso.

Quando digitamos algo num buscador como o Google, fazemos uma busca sintática, ou seja, procuramos pela exata seqüência de letras ― caracteres ― que foi digitada. Por exemplo, se desejamos saber quando ou onde Machado de Assis nasceu, basta que ponhamos a seqüência lingüística “Machado de Assis nasceu” no Google. O buscador mostrará todos os textos indexados que contenham exatamente esses caracteres, de modo que encontraremos sites com enunciados do tipo “Joaquim Maria Machado de Assis, jornalista, ‘contista’, cronista, romancista, poeta e [...] nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de Junho de 1839[2]”.

Quando fizemos a busca por “Machado de Assis nasceu”, obtivemos a informação que queríamos logo nas primeiras cinco páginas ― como visto na figura 01 (figuras em anexo) ―, poupando tempo e paciência, pois estas buscas muitas vezes nos levam ao famigerado estresse cognitivo. A busca não foi tão eficaz quando digitamos “Machado de Assis nascimento”, pois havia poucos sites com a estrutura nascimento; e houve um fracasso quando procuramos por “Machado de Assis nascer”.

É fundamental que se percebam as diferentes formas de se pesquisar conteúdo. A “nova” busca por tags não acontece com processos, verbos ― muito menos conjugados ―, de modo que deveríamos proceder de maneira diferente para obter a informação: em vez de procurar por “nasceu” ― que é um processo ―, devemos procurar por “nascimento” ― uma nominalização do processo.

A lexia “nasceu” em “Joaquim Maria Machado de Assis, jornalista [...] nasceu no Rio de Janeiro” tem uma função textual, i. é, como processo do participante Machado de Assis. O que pretendemos atentar aqui é que “nasceu” não é uma tag, é apenas uma parte do texto. As tags são selecionadas pelos autores dos textos ― como as palavras-chave para os artigos científicos ― e adicionadas aos textos através do site que oferece o serviço, o site que mantém o blog deste autor. As tags ― embora, por vezes, possam ser idênticas às palavras que aparecem no corpo textual ― têm a função de encapsular o conteúdo do texto; é, de certa forma, um uso sinótico.

Deste modo, a busca por tags é, por natureza, diversa da busca sintática, pois estas palavras-chave não estão no texto propriamente dito. Vejamos a figura 2 para facilitar a compreensão.

O que se vê na figura 2 é a chamada nuvem de tags. Estas nuvens são bem comuns em sites que hospedam blogs, em sites especializados em blogs, e nos próprios blogs ― neste último caso, não são tão recorrentes ―. Esta é a nuvem de tags do site Blogblogs[3], o maior indexador de blogs do Brasil. As palavras em azul são as tags, e as que são maiores o são por serem mais populares, ou seja, por serem mais acessadas. No fragmento da figura 2, temos a palavra-chave “cinema” como a mais a buscada[4]. Note que há apenas um verbo em toda a profusão de palavras, o verbo “baixar”; isso porque este processo é bastante comum na rede, representa o famoso download. O que se percebeu, na análise de mais de 20 blogs com tags, e no escrutínio dos sites especializados, é que verbos não são comumente elencados com tag. Retornaremos a este assunto mais à frente, quando da análise.

Como funciona então a busca na nuvem de tags? Simples. Se estamos interessados em ler textos sobre a Argentina, basta que cliquemos no lexema “argentina” que se encontra na nuvem. O site listará todos os textos que foram etiquetados com a tag “argentina”. É neste ponto que se encontra a diferença. O mecanismo de busca do site não vai captar a palavra “argentina” no corpo do texto, mas procurar por “argentina” entre as palavras-chave selecionadas pelos autores para os textos. É bastante óbvio que, muitas vezes, a palavra-chave também se encontra no texto em si, entretanto, é importante a compreensão de que a busca acontece de maneira diversa. Se clicamos em uma tag hiperonímica como “cultura”, por exemplo, poderemos acessar postagens que falam de música, moda, cinema e outros, mas que não contêm o lexema “cultura” nos seus textos.

Vejamos outro exemplo. Na figura 3, temos uma postagem que é um conto. O autor publicou um conto de sua autoria em seu blog. No processo de publicação, no próprio site, ele escolheu e escreveu a palavra “contos” como palavra-chave ― tag ― para este texto. A tag esta visível na parte inferior da figura 3, com o nome marcadores[5]. O que acontece é que o texto deste blogueiro será listado, mostrado, quando alguém clicar na palavra “contos” numa nuvem de tags. A posição na lista depende de outros fatores; alguns sites listam primeiro os blogs mais acessados, outros os textos mais recentes etc. É importante perceber que o lexema “contos” não está presente no corpo do texto, ou seja, não apareceria numa pesquisa por esta palavra no Google. 

Algumas tags servem para categorizar os textos dentro dos blogs. Em alguns servidores, existe inclusive a função categoria, além da tag. Muitas pessoas confundem as funções, usam as tags e as categorias como se fossem a mesma coisa. Na análise, veremos que este uso comum pode até ajudar na categorização, contudo diminui a precisão com a qual os textos são etiquetados. As categorias servem para agrupar os textos em blocos temáticos, e geralmente são nomeadas por hiperonímia, ao contrário das tags que são mais precisas, sinóticas, específicas, nomeadas na hiponímia. Vejamos a figura 4.

Na figura 4, temos duas postagens de um blog sobre entretenimento. A primeira, com o nome “Flash Gordon vai ter novo filme”, fala de uma nova adaptação, que será produzida, da história do herói dos quadrinhos para o cinema. Vemos, na foto, os lexemas hiperonímicos “Cinema e DVD” e “Quadrinhos” funcionando como categorias; estão colocados após o sintagma “Arquivado em”. De outra forma, nós temos os hipônimos “Flash Gordon” e “Adaptação” como etiquetas; estão colocados após o sintagma Tagged ― “tagueado”, etiquetado. A tag “100grana” é o nome do blog.

Por um lado, a categoria “Quadrinhos”, por exemplo, serve para agrupar ― ou arquivar ―, dentro do blog, todas as notícias concernentes a histórias em quadrinhos. Por outro lado, uma etiqueta como “Flash Gordon” ajuda a listar este texto, esta postagem sobre o novo filme, nas buscas que serão feitas especificamente sobre este herói. Pois as buscas por tags, além de acontecerem nas nuvens de tags, também são realizadas em buscadores comuns, como pode ser percebido na figura 5 do site da Livraria Cultura. Voltaremos a falar sobre tags e categorias na análise.

Acreditamos que, a esta altura, já tenha sido percebido que a escolha de uma palavra para tag ― etiqueta de um texto ― deve ser feita com bastante consciência. A correta eleição de uma palavra-chave pode aumentar o acesso ao texto. Imaginemos, no caso do site da Livraria Cultura ― mesmo cientes de que ele não é um blog, e de que ele vende livros e afins ―, que tags como “sobrenatural” podem levar a livros de Alan Poe, Álvares de Azevedo e outros. Entretanto, se um indivíduo “definir” a Bíblia Sagrada como “sobrenatural” ― apenas por esta tratar de um homem que curava pessoas, que andava na água e que multiplicava pães ―, este indivíduo cometeu um equívoco, pois certamente a Bíblia receberia mais acessos, seria encontrada, se uma tag diferente tivesse sido elencada; certamente o livro sagrado não está nos planos das pessoas que buscam pela palavra-chave “sobrenatural”.

 

2. Análise e sugestões de trabalho

 

Como estamos tratando de lexemas e lexias que compõem o eixo semântico dos textos, não havia como não nos depararmos com os conceitos de campo semântico e de hiperonímia/hiponímia. Quando escrevemos um texto, utilizamos palavras de um mesmo campo semântico, do contrário, corremos o risco de perder a progressão temática. Carvalho (1989:31), lembra que Mattoso Câmara “considera campos semânticos associações de significações para um certo número de lexemas”. Soaria bastante estranho se o lexema vaca aparecesse neste artigo; ele precisaria estar muito bem contextualizado. Entretanto, vaca não traria estranheza alguma se fosse sinônimo de algum dos termos do eixo semântico do texto, em outras palavras, se fizesse parte do campo semântico desses termos. Não seria estranho se, neste artigo, a palavra inglesa mouse (rato) se fizesse presente, pois estamos falando de educação e computação, de blogs, tags, computadores, internet e afins; e mouse está neste campo semântico maior, o da computação.

Um problema encontrado foi o da escolha de palavras-chave que não fazem parte do eixo semântico do texto. Vamos a um exemplo: se dissermos a você, leitor, que você lerá um texto cuja única palavra-chave é “o inspirado”, sobre o que você acha que vai ler? É bastante vago, não é? Mas garantimos que uma das suas últimas respostas possíveis seria “eu lerei sobre um músico que superou o decadente mercado fonográfico disponibilizando suas músicas de graça na internet”. Este é o conteúdo da postagem da figura 06, que fora etiquetada com o sintagma “o inspirado”. Em nossa opinião, seriam tags adequadas para este texto: músico, música, mercado fonográfico, download gratuito etc.

Provavelmente o que o autor do blog quis dizer foi “este é um dos textos que eu escrevi quando eu estava inspirado, mesmo que o texto nada tenha a ver com inspiração”. Este é um legítimo propósito comunicativo, indicar onde estão ― dentro do seu blog ― os textos “inspirados”. Porém, é neste momento que adentram as categorias, elas que têm a função de agrupar, de armazenar. Repare que, ao usar um lexema que serviria para categorizar, quando deveria ter usado palavras-chave, o autor acabou rotulando o texto com vagueza. O bom texto da figura 06 ― que fala sobre superação num mercado fonográfico difícil ― dificilmente será encontrado pelos mecanismos de busca por tags, e terá o número de leitores reduzido; tudo porque não houve uma adequada eleição de palavras-chave. Quem quer ler sobre mercado fonográfico, sobre formas de vender mais, dificilmente procurará por “inspiração” nos mecanismos de busca, e muito menos por “inspirado”.

Uma possível solução para o problema descrito há pouco, caso não se queira fazer a distinção entre categoria e tag[6], é utilizar a palavra que funciona como categoria mais as que funcionam como tags. Foram encontradas diversas amostras dessa junção; vemos uma na figura 07. O texto da postagem fala sobre um novo filme baseado numa obra do autor Stephen King que estreará nos cinemas. O autor escolheu o lexema “cinema” como tag, o que ajudará a organizar o texto, entre os outros que tratam da sétima arte, dentro do seu próprio site. “Cinema” funciona como categoria. Todavia cinema ainda é muito vago. Como o autor atrairia os fãs de Stephen King para o seu site? Ele resolveu o “problema” adotando também o nome do autor como tag, e ainda os sintagmas “o nevoeiro” e “the mist” (nome do filme em português e no original) entre outros. Assim, quem fizer a busca por “Stephen King”, ou por “O Nevoreiro”, será possivelmente conduzido ao site, ao texto.

As palavras que funcionam como categorias são de caráter hiperonímico. A noção de hiperonímia/hiponímia ajuda não apenas na composição dos textos, mas também na eleição das palavras-chave. Considerando a acepção na qual “Hiperônimo é uma palavra que apresenta um significado mais abrangente do que o do seu hipônimo[7]”, temos, ainda na figura 07, que as palavras-chave escolhidas começam com hiperônimos (cinema, filme), mas têm hipônimos (Stephen King, O Nevoeiro). Note que a ciência desta realidade semântica colaborou também para a construção de um texto coeso:

 

 

Com estréia prevista nos cinemas brazucas em 20 de junho, The Mist (O Nevoeiro) é um misto de “Guerra dos Mundos” com “Cloverfield” e foi inspirado no livro do escritor Stephen King e é muito bem contado.[8] [grifos nossos]

 

 

Vejamos a postagem da figura 08 na qual, a despeito dos erros de digitação, percebemos igualmente o jogo de hiperônimos e hipônimos na construção do texto intitulado “100 anos de progresso?”:

 

 

- Em 1908, o Ford Modelo TW (primeiro veículo de produção em massa) consumia 14 litros para alcançar 100 km.

- Em 2008 o Ford F-150 (a pick-up mais vendido dos EUA) consume 15 litros para fazer os mesmos 100 km.[9] [grifos nossos]

 

 

O autor do texto da figura 08 elencou o lexema “transporte” (de caráter mais hiperonímico), “carro” (menos hiperonímico) e os hipônimos “Ford Modelo T” e “Ford Modelo F-150” como palavras-chave (tags) para seu texto. Esta postagem será eventualmente acessada por aqueles que procurarem por carros em geral, e pelos que procuram especificamente por esses modelos (o T e o F-150).

Já para o escrito visto na figura 09, a autora selecionou tags como “saúde e bem-estar”, “dor no ombro”, “dor no pescoço”, “stress” e “pilates”. Repare no jogo de hiperonímia e hiponímia entre essas palavras que possuem ligação semântica, que estão num mesmo campo semântico. Apenas olhando para essas tags, temos uma idéia muito aproximada sobre qual será o conteúdo do texto. É bem diferente de olhar para uma tag como “o inspirado”. A postagem da figura 09 fala exatamente sobre dores nos ombros e no pescoço, sobre como dirimir estas dores, e como o pilates ajuda neste trabalho em busca do bem-estar.

O mesmo não acontece quando olhamos para tags como “educação”, “informação”, “internet” e “vídeo”; é difícil precisar sobre o que fala um texto etiquetado com estes lexemas. Isto acontece porquanto foram selecionados, como palavras-chave, termos de caráter hiperonímico, de sentido muito abrangente, e nenhum hipônimo. Estas são as tags da figura 10. A postagem nos mostra um vídeo no qual alunos de uma universidade nos Estados Unidos questionam o sistema educacional superior de seu país.

A eleição de um hiperônimo como tag é interessante, desde que o termo não seja a única palavra-chave. Se observarmos o site nacional do Wordpress[10] ― conhecido servidor de blogs ―, veremos que sua nuvem de tags contém somente termos de semântica vasta, hiperônimos, conforme mostra a figura 11 (ver a seção “Tags do Momento” na figura). De modo oposto, o site Technorati[11] ― maior indexador de blogs do mundo ― exibe logo na sua primeira linha da nuvem de tags, como pode ser percebido na figura 12 (na parte inferior da imagem, à direita), os termos “2008 election” (estamos no ano das eleições para presidente dos Estados Unidos), “american idol” (um programa de TV), “apple” (marca de computadores) e “barack obama” (candidato americano), ou seja, termos mais específicos.

Pode-se afirmar então que, para que uma postagem seja adequadamente etiquetada, é necessário que o autor utilize hiperônimos e hipônimos. Os hiperônimos podem ajudar a categorizar os textos dentro dos próprios blogs, além de listar estas postagens quando algum leitor fizer uma busca por termos mais abrangentes ― como “saúde” por exemplo ―. Os hipônimos têm a função sinótica, fazem um “resumo” do texto, e devem, a priori, ser selecionados entre os termos que fazem parte do eixo semântico central da produção textual. Esses hipônimos geralmente estão num mesmo campo semântico, são sinônimos de algum outro termo, e funcionam para exibir o texto em sites de busca quando algum internauta procura por termos específicos ― como “dor nos ombros” por exemplo.

A correta eleição das tags não só faz com que os textos obtenham mais acessos, ela faz com que as postagens sejam corretamente acessadas. É importante atentar para este detalhe. Se pretendemos abrir um comércio para vender hortaliças, legumes e outros, e buscamos pelo termo “hortifruti” num buscador de tags, certamente não queremos saber, neste momento, de uma mulher que ganha dinheiro dançando funk e exibindo seus belos atributos, suas belas curvas. Contudo, “hortifruti” foi uma das tags escolhidas pelo autor do texto da figura 13. Tudo porquanto a garota se denomina Mulher Melão.

Neste último exemplo, da Mulher Melão, provavelmente o leitor não permaneceria no blog, pois não era por isso que ele procurava. O texto foi acessado, porém não lido. Situações como esta corroboram o estresse cognitivo, fazem o internauta perder tempo.

Também é de substancial importância lembrar que o processamento da leitura no hipertexto difere do processamento da leitura no papel. Xavier (2005:174), ao falar da leitura no hipertexto por parte de internautas experientes, defende o seguinte:

 

 

Essa deslinearização da leitura no hipertexto possibilita, involuntariamente, a plenificação do sentido da palavra inteligência ― do latim intelligentia ― termo criado por Cícero no século I a.C. inspirado no vocábulo grego de Aristóteles “dianóia”. A palavra composta pelo prefixo inter mais legere pode significar “ler entre” as linhas do texto ou “escolher entre” as várias direções projetadas nele. Isso certamente desobriga o hiperleitor a seguir ortodaxamente as diretrizes organizacionais do autor, como ocorre com os leitores dos textos comuns. Neste sentido, ler no hipertexto seria literalmente um ato de inteligência, desde que se utilize adequadamente as múltiplas escolhas que ele oferece.

 

 

Como nos deparamos, no hipertexto, com esta multisemiose ― muitas vezes um excesso de informações (textuais, imagéticas, sonoras) ― e como estamos, por vezes, apressados (pelo trabalho, pela ânsia de desbravar esse universo de informações que a internet disponibiliza) aproveitamos todas as pistas para averiguar se um site contém precisamente o que buscamos. O hiperleitor experiente, inteligente ― que escolhe entre os caminhos ―, faz uso de todas as pistas, e as tags começam a servir como tal. Quando encontravam textos grandes, os internautas perscrutavam títulos, imagens e links para “adiantar” a compreensão, para prever o que seria lido ― ou não lido ―. Ora, existe alguma pista melhor do que as palavras que representam o eixo semântico central dos textos? Existe pista melhor do que os termos que são quase o thesis statement das postagens? As tags, quando são adequadamente selecionadas, fazem uma sinopse perfeita do conteúdo textual, e os navegadores mais experientes já perceberam isso.

É um jogo de ida e volta que pode ser precioso nas escolas. Trabalhar com tags, além de envolver a internet ― que por si só atrai os alunos ―, pode ajudar os estudantes a raciocinar sobre como construir seus textos de maneira coesa (no uso de hiperônimos, hipônimos e sinônimos). Alguns dos termos usados na confecção dos textos podem ser elencados como tags, e, após a eleição destas palavras-chave, discussões podem ser feitas com os alunos. Essas discussões devem averiguar a adequação das tags ao texto, no que diz respeito aos eventuais acessos na internet e à correta escolha das etiquetas ― averiguar se elas representam adequadamente o eixo semântico do que fora escrito, se fazem bons “resumos” ―. Tais reflexões farão com que os estudantes escritores, quando na condição inversa, de leitores, reconheçam as tags como pistas que, unidas a outras pistas semióticas, antecipam o conteúdo do que vai ser lido ― ou não ― na internet, poupando-lhes tempo.

Interessante seria, para um trabalho de produção de textos, escolher as palavras-chave – pelo menos algumas – antes da confecção das postagens para blogs. O professor poderia indicar um tema, ou deixar a escolha livre aos alunos. Vamos supor que alguém decide escrever sobre a morte de Dercy Goncalves, então já teríamos duas tags: Dercy Goncalves (principal participante do texto que será elaborado) e morte (processo nominalizado, pois verbos conjugados não são comuns como tags; não se deve usar a lexia morreu). Uma etapa de busca por sinônimos se mostra interessante para a atribuição de outras palavras-chave. Atriz brasileira (sinônimo para Dercy) e falecimento (sinônimo para morte) poderiam, por exemplo, ser elencadas. Nessa pequena brincadeira, já teríamos 04 etiquetas para o texto (Dercy Gonçalves, atriz brasileira, morte e falecimento), e essas tags poderiam ser usadas pelos alunos no desenvolver do texto, na produção escrita, evitando as famigeradas repetições (como escrever o nome da atriz em demasia).

 

3. Conclusão

 

Percebemos, neste artigo, que as tags apresentam duas funcionalidades, como encontradas na maioria dos blogs pesquisados: uma de caráter categórico, exercida por termos de semântica abrangente, hiperônimos; outra de caráter resumidor, sinótico, exercida por hipônimos. A correta eleição destas etiquetas facilita a organização e a busca por textos específicos dentro dos blogs, assim como possibilita que as postagens nos blogs sejam corretamente acessadas, i. é, que as postagens sejam acessadas por leitores que buscam pelo conteúdo exato delas. A adequação das tags diminui o estresse cognitivo dos hiperleitores, e este é um dos motivos (entre outros, como a melhora na produção de textos) pelos quais estas palavras-chave devem ser trabalhadas em sala de aula.     

 

 

Referências Bibliográficas:

 

CARVALHO, Nelly. Empréstimos Lingüísticos. São Paulo: Editora Ática. 1989.

 

ULLMANN, Stephen. Semântica - Uma Introdução à Ciência do Significado. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1967.

 

XAVIER, Antônio Carlos. Leitura, texto e hipertexto. In: MARCUSCHI, L. Antônio, XAVIER, A. Carlos (orgs). Hipertexto e Gêneros Digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.

 

 

  

Anexos:

 

Figura 01 – Busca por “Machado de Assis nasceu” no Google.

                                                                                                              

 

 

 

Figura 02 – disponível em www.blogblogs.com.br [acesso em 04/08/2008]

 

 

 

 

Figura 03 - http://atrilha.blogspot.com/2008/07/pipa.html [acesso em 04/08/2008]

 

 

 

 

Figura 04 - http://100grana.wordpress.com/2008/05/23/flash-gordon-vai-voltar-aos-cinemas/ [acesso em 01/08/2008]

 

 

 

 

Figura 05 – www.livrariacultura.com.br [acesso em 04/08/2008]

 

 

 

 

Figura 06 - http://jogodoheroi.blogspot.com/search/label/O%20Inspirado [acesso em 04/08/2008]

 

 

 

 

Figura 07 - http://www.murilocardoso.com.br/blog/labels/the%20mist.html [acesso em 04/08/2008]

 

 

 

 

 

Figura 08 - http://rodrigobarba.com/blog/2008/03/30/100-anos-de-progresso/ [acesso em 01/08/2008]

 

 

 

 

Figura 09 - http://tatipilates.wordpress.com/2008/05/28/tensao-pescoco-ombro/ [acesso 02/08/2008]

 

 

 

 

Figura 10 - http://fabriciokc.wordpress.com/2008/03/21/170/ [acesso em 01/08/2008]

 

 

 

 

Figura 11 - http://pt-br.wordpress.com/ [acesso em 26/07/2008]

 

 

 

 

Figura 12 – www.technorati.com [acesso em 26/07/2008]

 

 

 

Figura 13 - http://pontodvista.wordpress.com/2008/05/22/apresento-a-voces-a-mulher-melao/ [acesso em 02/08/2008]

 

 


 

[1] O Presente trabalho foi realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq - Brasil.  

[2] http://povodebaha.blogspot.com/2004/06/machado-de-assis-nasceu-h-165-anos.html [acesso em 05/08/2008]

[3] http://www.blogblogs.com.br

[4] Devido ao tamanho da tela, e à extensão dos blogs, não pudemos reproduzir os screenshots (fotos da tela) em sua completude. Porém, foi reproduzido o essencial ao entendimento.

[5] Relembrando: tags também são chamadas de marcadores ou etiquetas.

[6] Alguns serviços de blogs oferecem a opção/espaço para o preenchimento de categorias e outro espaço para o de tags.

[7] http://www.brasilescola.com/gramatica/hiponimos-hiperonimos.htm [acesso em 06/08/2008]

[8] http://www.murilocardoso.com.br/blog/labels/the%20mist.html [acesso em 06/08/2008]

[9] http://rodrigobarba.com/blog/2008/03/30/100-anos-de-progresso/ [acesso em 06/08/08]

[10] http://pt-br.wordpress.com/ [acesso em 06/08/08]

[11] http://technorati.com/ [acesso em 06/08/08]