|
Ao citar este trabalho, utilize a seguinte referência: GUIMARÃES, C. P. 2010. A tecnologia blog: de diário a fichário virtual. In.: Eutomia - Revista online de Literatura e Linguística. Ano III. vol. 01. ISSN: 1982-6850. Disponível em: [ http://www.revistaeutomia.com.br/ ] |
A Tecnologia Blog: de diário a fichário virtual.
Cleber Pacheco Guimarães[1]
Resumo:
Este artigo visa discutir o status do blog enquanto gênero textual. Será defendida a tese de que blogs não são gêneros. Recorreremos basicamente à noção de Configurações Contextuais e à noção de affordances, advinda da psicologia, para definir blogs como ― unicamente ― programas de computador. Tal discussão é relevante por determinar as aplicações que podem ser realizadas com o aplicativo blog em salas de aula. A visão de blog enquanto gênero guia trabalhos pedagógicos numa determinada direção, a visão de não-gênero guia os trabalhos por outro caminho.
Palavras-chave: gêneros digitais, configurações contextuais, blogs
Abstract:
This article aims to investigate the status of blogs as a textual genre. It defends the hypothesis that blogs are not textual genres. In effect, we use Contextual Configurations and the notion of affordances to support the definition of blogs as ― solely ― computer programs. The relevance of this study lies on the fact that it may determine how teachers will use blogs in the classroom. The belief that blogs are textual genres may lead teachers’ practice in one direction, whereas the concept of blogs as non-genre may influence a different pedagogic future.
Keywords: textual genres, contextual configurations, blogs
Introdução
Na medida em que estudos sobre gêneros digitais vão surgindo, vamos percebendo o quão “arriscado” é tratar deste assunto. Este é um tema ainda bastante incipiente, e a velocidade das descobertas é similar à do nascimento de novas tecnologias. Usamos o termo “arriscado” porque um artigo como este, leitor, qual o que tens em mãos, pode se tornar obsoleto em questão de meses. Há cinco anos, blogs eram tratados como diários online. Há pouco essa definição foi superada, e hoje vimos a defender que blogs nem sequer são gêneros textuais. O que se dirá daqui a cinco anos?
Por hora, defendemos ser importante não enxergar blog como um gênero digital, mas como tecnologia. O motivo para tal defesa será externado no final deste artigo. Comecemos com a fundamentação que, no atual Estado da Arte, permiti-nos “arriscar”, e defender blogs como ― unicamente ― programas de computador.
1. Configurações Contextuais
Gêneros são entes contextuais. Pode soar trivial, mas é imperativo afirmar, dado o propósito deste item, que todo gênero se realiza num contexto. Retomando Marcuschi (2002, p. 19), vemos que gêneros são “entidades sócio-discursivas e formas de ação social incontornáveis em qualquer situação comunicativa” [grifos nossos]. Bakhtin, ao tratar de enunciados, assevera que:
Um enunciado isolado e concreto é dado num contexto cultural e semântico-axiológico (científico, artístico, político etc.) ou no contexto de uma situação isolada da vida privada; apenas nesses contextos o enunciado é vivo e compreensível (BAKHTIN, 1993 [1924], p. 46) [grifos nossos]
A situação comunicativa e este contexto imediato ─ “contexto de uma situação isolada da vida privada”, como dito por Bakhtin ─ são chamados, na Linguística Sistêmico-Funcional (LSF), de contexto da situação. Todo gênero se materializa numa situação comunicativa, portanto, sob determinada configuração de fatores que norteiam e influenciam a atividade comunicativa, uma configuração contextual. Motta-Roth e Heberle (2007, p. 17) defendem que, enquanto uma configuração contextual (doravante cc) determina uma classe de situações, “o gênero se configura na linguagem que desempenha o papel apropriado àquela classe de acontecimentos sociais”.
À luz da LSF, podemos descrever qualquer cc por intermédio de três variáveis. Tais variáveis irão condicionar e estão atreladas aos gêneros. São elas: campo, relação e modo.
A variável campo representa a natureza da prática social. É para esta variável que, no nosso entendimento, convergem olhares como o dos sócio-retóricos sobre gêneros como ação social ― e não apenas como construtos formais ―. A variável em questão representa o ato e os objetivos do gênero adequado para determinada cc. Temos, por exemplo, que o campo para uma bula de remédio seria “fornecer informações técnicas e de uso de determinado remédio”.
A variável relação representa a natureza da conexão entre os participantes. Não nos aprofundaremos aqui nos pormenores da LSF, e nos importa substancialmente mais a variável campo, porém, ainda para a bula de remédio, poderíamos encontrar a relação de “especialista (farmacêutico) para usuários ‘invisíveis’, que é não-hierárquica e possui distância social máxima (pois os interactantes não se conhecem)”.
A variável modo representa a natureza do meio de transmissão da mensagem. No caso da bula, temos, para modo, um canal gráfico e um meio escrito. Também, nesta variável, considera-se o papel da linguagem, se constitutivo ou auxiliar.
As três variáveis se articulam para representar a cc ─ da situação comunicativa, imediata ou “da vida privada” ─ sob a qual o gênero (bula de remédio no exemplo) se realiza. Como todo gênero é contextual, defendemos que podemos descrever uma cc para qualquer gênero. Para facilitar o entendimento, seguem, abaixo, as cc para os gêneros bula de remédio, transação comercial e defesa de tese de doutorado. As descrições foram feitas com base no artigo de Motta-Roth e Heberle (2007), no entanto assumimos a responsabilidade por quaisquer inadequações nos quadros abaixo (ver tabela 01).
Teríamos dificuldade em apresentar uma cc para uma sequência linguística qualquer, isolada, que não configurasse um gênero, pois não poderíamos compreender a natureza de sua prática social, não conheceríamos a natureza dos interlocutores atrelados àquela manifestação comunicativa.
Mesmo que tivéssemos algumas das variáveis da cc, haveria problemas para “perceber um gênero”. Imaginemos a frase “eu estive aqui ontem”, encontrada, num quadro negro, por alunos que chegavam para uma aula de, por exemplo, anatomia. Poderíamos até arriscar a variável campo ― dar um aviso a alguém ―, e teríamos a variável modo ― canal gráfico, meio escrito e papel auxiliar ―, mas não saberíamos quem escreveu a frase, e nem para quem ela foi escrita, de modo que a natureza da relação entre os participantes seria desconhecida. Desta forma, a variável relação estaria comprometida. Se não há uma das variáveis (neste caso, a variável relação), não há uma cc, portanto não há gênero.



Tabela 01 – Configurações contextuais
Por outro lado, se a frase encontrada no quadro fosse “não darei aula hoje”, e estivesse acompanhada da assinatura do professor que daria a aula de anatomia, teríamos bem clara a variável relação ― entre professor e alunos, distância social mínima, interactantes se conhecem ―, e teríamos então as três variáveis, uma configuração contextual (cc) completa. Poderíamos então observar um gênero na situação exemplificada, o gênero aviso. Como postulado por Bakhtin, é válido lembrar, apenas quando imerso num contexto cultural, semântico-axiológico, é que um enunciado isolado ganha vida. Gêneros ganham vida em configurações contextuais.
Compreender que todo gênero se dá num contexto, portanto numa cc, é de fundamental importância para o entendimento do que será discutido sobre blogs nos itens a seguir.
2. Blogs: gêneros textuais?
Será defendido, neste instante, que blogs não são gêneros textuais. A base para essa defesa é o postulado de que um gênero textual se realiza sob uma determinada cc, fato que não acontece com o blog. Também recorreremos à Miller (2009) que trata das affordances para asseverar que o blog é um tecnologia, e não um gênero. Affordances são as possibilidades de interação propiciadas, no caso em questão, pela mídia digital.
É interessante, então, que esclareçamos o que entendemos por gênero. O conhecido fragmento de Bakhtin é, para nós, uma das melhores definições encontradas para tal termo; não é à toa que o autor é o ponto de partida para a maioria dos estudos sobre gênero. Bakhtin assim versa sobre “enunciado” (noção que se confunde, em sua obra, com a de gênero):
Todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que sejam, estão relacionadas com a utilização da língua [...]. O enunciado reflete as condições específicas de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo temático e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua ― recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais ― mas também, e sobretudo, pela sua construção composicional. Assim sendo, todos os enunciados se baseiam em formas-padrão e relativamente estáveis de estruturação de um todo (BAKHTIN, 1992 [1953], p.179).
Gêneros textuais seriam então estas formas-padrão, relativamente estáveis, de estruturação. Voltemos a pensar na bula de remédio. Este gênero é marcado por um conteúdo temático recorrente (pois realiza a ação de informar os leitores sobre um dado medicamento), por um determinado estilo verbal (visto que utiliza um léxico específico, e uma estruturação formal das frases) e uma construção composicional típica (basta que olhemos rapidamente a uma bula de remédio para que reconheçamos o gênero; sua configuração é bastante nítida e recorrente). Por serem formas relativamente estáveis de estruturação, as bulas podem, certamente, apresentar variações “contidas” em sua forma de apresentação; podem, preservando sua estrutura genérica, modelar-se de acordo com as particularidades dos usuário.
É evidente que esta atribuição de características genéricas não se dá tão facilmente com todos os ditos gêneros textuais. Rojo cita Bronckart para trazer à tona uma discussão relevante: a dificuldade para delimitar e designar gêneros textuais. Bronckart (apud ROJO, 2007, p. 189-190) faz uso de uma metáfora ― a da nebulosa ― que, segundo ele, representa a forma como a organização dos gêneros se nos apresenta. Existiriam: 1. gêneros que são claramente definidos e rotulados, e 2. conjuntos de textos com contornos vagos, “para os quais as definições e critérios de classificação ainda são móveis e/ou divergentes”.

Figura 01 – Blog do Tas. Disponível em <http://www.tas.blog.uol.com.br>. Acesso em 05/04/2010
O problema com os blogs é que não lhe podemos atribuir característica genérica alguma, nem conteúdo temático, nem estilo e talvez nem a construção composicional. Discutamos isso agora.
Observe-se a figura 01. Este é um screenshot (foto da tela) de parte do blog do Marcelo Tas, eleito mais de uma vez ― em prêmios nacionais e internacionais ― como o melhor blog jornalístico em língua portuguesa. Falemos um pouco sobre ele.
Quando analisamos o blog, Marcelo Tas havia acabado de postar/publicar uma reportagem, em vídeo, sobre o papel dos vereadores. Na postagem imediatamente abaixo (a anterior), o autor fez uma propaganda do seu programa numa emissora de televisão, utilizando um banner imenso, um vídeo de divulgação e material escrito sobre a pauta do programa. E na postagem anterior à da propaganda, Marcelo Tas escreveu sobre sua visita a uma determinada universidade, e postou fotos deste momento. Vemos estas postagens na figura 02.
Lembremos da bula de remédio, que é gênero e, portanto, apresenta-se numa cc. Da mesma forma, procede o e-mail e todos os outros gêneros[2]. No entanto, o que temos para o blog do Tas ― e para a maioria absoluta dos blogs ― é o que se apresenta na figura 02. Temos configurações contextuais diferentes no mesmo “gênero”. Há uma cc para a reportagem em vídeo, outra cc para a propaganda do programa de televisão e uma outra cc para a entrada de diário.
Atente, na figura 02, para o fato de que não podemos falar de uma cc única e global para blogs ― como podemos, por exemplo, para a bula de remédio ―, isso porque a variável campo apresenta uma incógnita. Qual é a natureza da prática social realizada pelos blogs? Alguém poderia afirmar que esta variável depende do tipo de blog, mas refutamos categoricamente a afirmação. Não depende do tipo de blog. O blog do Tas é um renomado (e descrito como) blog jornalístico, entretanto a incógnita continua: qual é a natureza da prática social realizada pelo blog do Tas? Ele pretende contribuir com a sociedade nas suas reportagens esclarecedoras (e em vídeo, não escritas) sobre política? Ou ele pretende usar o canal enunciativo principal do blog para fazer propaganda de seu programa de TV? Ou nenhuma das alternativas? Ele pretende usar seu blog como diário e contar sobre suas visitas e palestras, e postar fotos destas visitas? Será que podemos falar de conteúdo temático recorrente no blog do Tas? Repare que analisamos apenas três postagens do blog. Poderíamos encontrar outros e outros propósitos em cada uma das postagens. O que há é uma irmanação de gêneros diferentes, adequados ao propósito do autor.

Figura 02 – Blog do Tas. Note as cc para a reportagem em vídeo, para a propaganda e para a entrada de diário com fotos. Disponível em <http://www.tas.blog.uol.com.br>. Acesso em 23/09/2008
Para nós, fica bem claro que o blog é uma tecnologia para a postagem de conteúdo digital (não apenas textos escritos, mas vídeos, fotos e até programas de rádio), assim como existe o e-mail que é uma tecnologia para o envio de mensagens. A diferença é que, afora o e-mail enquanto tecnologia digital, também existe o e-mail enquanto gênero (em seu aspecto formal recorrente). O blog não existe enquanto gênero.
O termo tecnologia remete às técnicas, ao conhecimento e aos recursos, disponíveis em determinado momento histórico, utilizados pelo ser humano para a resolução de problemas. Cerca de 50 anos atrás, guerras eram travadas praticamente no face-a-face, no encontro de tropas armadas. Hodiernamente, dada a tecnologia bélica, uma guerra pode ser ganha com o aperto de um botão, sem que os inimigos precisem se deslocar por milhares de quilômetros. Por sua vez, a tecnologia médica possibilita hoje o transplante de órgãos e a manipulação genética. Já entre as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC) estão os telefones (celular e fixo), a Internet, os computadores pessoais e seus programas (como o aplicativo blog e os softwares para o envio de e-mails). A título de exemplo, o Outlook é um programa de computador, desenvolvido pela empresa Microsoft, para acessar a Rede Mundial de Computadores, através de protocolos SMTP/POP3, e enviar/receber mensagens de e-mail. Em outras palavras, o Outlook é uma tecnologia para a comunicação (e podemos dizer o mesmo para os blogs).
Já que falamos sobre o Outlook, é interessante atentar no seguinte: quando pedimos a alguém que redija um e-mail, esta pessoa sabe que não vai poder se alongar, que seria interessante terminar o e-mail registrando seu nome, enfim, o locutor sente estas e outras amarras do gênero. Por outro lado, quando se pede a alguém que redija uma postagem para blogs, não há amarras, uma vez que não há gênero. Podemos escrever um capítulo gigantesco de livro; ou postar apenas um vídeo sobre qualquer assunto; ou pôr um arquivo de áudio que vai fazer com que o blog nem seja lido, mas apenas escutado. Não há aspecto composicional (nem estilo verbal) associado aos blogs. E diferentemente do que o que acontece nos gêneros intercalados de Bakhtin, nos quais vários gêneros trabalham a favor de um gênero maior (no caso, o romance), os gêneros nos blogs não trabalham numa única cc, numa cc global.
Para um melhor entendimento do que chamamos de cc global, observe a figura 03. Ela apresenta um screenshot do blog de um colóquio sobre hipertexto. Esse é um caso raro em que podemos perceber as postagens trabalhando numa cc global. Repare que as postagens se complementam trazendo informações sobre o colóquio (inscrições, valores e outros). A “união” das postagens, numa única cc, faz com que o blog funcione como um folder para a divulgação do evento. Este blog, especificamente, realiza-se sobre as mesmas variáveis contextuais (campo, relação e modo), tem um propósito comunicativo específico. Este funcionamento diferencia-se do de Marcelo Tas, no qual as postagens, como visto anteriormente, não interagem numa cc global.

Figura 03 – Blog do I CHIP . Disponível em <http://www.chip2008.blogspot.com>. Acesso em 19/09/2008
Mesmo neste caso, do blog do colóquio, não podemos falar de gênero. Provavelmente os organizadores do evento utilizaram a estrutura e a tecnologia do blog por três motivos: a) a facilidade de criar/produzir um blog, em comparação a um site comum; b) a hospedagem gratuita oferecida pelo servidor Blogger; e c) a velocidade na qual blogs são indexados pelo Google, tornando-os acessíveis mundialmente ― uma eficiente estratégia de divulgação ―. Os próprios organizadores quebraram a cc global ― a “função de folder” ― ao, após o término do evento, postar vídeos e fotos das conferências realizadas. Houve um novo propósito dado ao blog. Temos claramente uma tecnologia a serviço do evento, e não um gênero.
3. A tecnologia blog e as implicações para seu estudo
Acreditamos que um entendimento não-atualizado sobre o que é um blog pode acarretar dificuldades, por exemplo, para professores de língua quando tratarem de gêneros digitais em sala de aula. O professor precisa entender que o blog é uma tecnologia, uma ferramenta que agrega conteúdo digital em ordem cronológica inversa. O docente não deveria ensiná-lo, trabalhá-lo, como um gênero e impor as “amarras deste gênero” aos alunos, sobretudo se forem amarras procedentes de definições mais antigas, como “blogs são diários virtuais”[3]. Os trabalhos de Komesu (2005), Yus (2007), Felis & Nacimento (2005) entre outros tratam de blogs como gêneros textuais, e, apesar de reconhecerem um ou outro uso adicional, tendem a analisar blogs unicamente como diários virtuais. É válida a consulta a estes textos. Yus, por exemplo, trabalha blogs numa perspectiva pragmático-cognitiva. Feliz & Nascimento se propõem a traçar um modelo didático do “gênero”. Entretanto, o texto mais interessante é o de Komesu. Discutamos algo sobre este trabalho.
Komesu, que se refere a blogs como ferramentas de auto-expressão (2005, p. 119), clara alusão ao uso de blogs como diários, olha para esta tecnologia numa perspectiva discursiva, bakhtiniana (embora se atenha a comparar os gêneros mormente nos aspectos estruturais). A autora assim se posiciona a respeito:
“[...] O aparecimento dos blogs é ainda bastante recente; como atividade humana, apóia-se em gêneros “relativamente estáveis”, já consagrados, para sua composição. Pode-se, assim, identificar traços do gênero diário na constituição dos blogs” (KOMESU, 2005, p.114)
Vejamos um exemplo de como Komesu associa blogs a diários. Para a autora, o cabeçalho, com a data da produção textual, é um dos traços marcantes na prática diarista. Komesu, então, afirma que em todos os blogs de sua pesquisa havia cabeçalhos. Este seria um modo de organização (nos blogs) que evoca a prática da escrita em diários íntimos. Todavia, em nossa visão, não é interessante associar blogs a diários nestes moldes. Este é um “equívoco” causado justamente pelo olhar que busca características genéricas em um programa de computador. Como a própria Komesu nos lembra, Evan Williams, criador do blog, não inventou este software para que ele fosse utilizado como diário. O cabeçalho é inserido automaticamente pelo blog que, muitas vezes, pode ser programado para não inserir tal elemento.
Se um indivíduo criasse um blog hoje, e não tivesse conhecimento do programa, em qualquer texto que fosse postado (sendo entrada de diário ou não) seria inserido um cabeçalho. O blog do Marcelo Tas, como visto, não funciona como diário, e tem cabeçalhos. Até mesmo os vídeos postados pelo autor receberam cabeçalhos. Já o blog do CHIP apresenta cabeçalhos e funciona como um folder de divulgação do evento. Blogs exibem cabeçalhos por uma questão organizacional, é uma possibilidade do programa que também (mas não exclusivamente) pode ser utilizado para a prática diarista. Contudo, a presença de cabeçalhos nos blogs (ou de quaisquer outras características estruturais) não é influência da prática diarista. Blogs não são frutos de diários. São programas concebidos para registrar a navegação em rede, daí o termo weblog, que deu origem ao lexema blog (web = rede, log = registro). Em outras palavras, o fato de blogs e de diários íntimos apresentarem cabeçalhos é uma mera coincidência, e não uma similaridade genérica.
A visão do professor Alex Primo, do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Informação da UFRGS, é elucidativa a respeito de definições de blogs como diários e afins:
É preciso que fique claro que blogs são meios de comunicação. A criação de um blog/espaço não determina necessariamente se ele será mantido de forma individual ou coletiva, tampouco se servirá a interesses lúdicos ou comerciais. Ao se instalar um blog/programa em um servidor ou passar a se utilizar um serviço gratuito (como Wordpress.com ou Blogger.com) não se está subscrevendo um compromisso com este ou aquele estilo literário. Logo, definições que caracterizem blogs, por exemplo, por produção individual, de tom confessional, por uma determinada faixa etária, não passam de postulados generalistas. São, portanto, visões essencialistas que, no fundo, servem apenas a intenções normativas (que visam impor como blogs “deveriam” ser) ou a críticas fáceis (como “blogs nunca tem credibilidade”). (PRIMO, 2008) [grifos nossos]
Em nossão opinião, Primo avança consideravelmente, nos estudos a respeito, quando defende, ao longo de seu texto, que blogs são programas. Afirmamos que é por este motivo que eles não estabelecem “um compromisso com este ou aquele estilo literário”. Não são gêneros; não há como se falar previamente em conteúdo ou estilo algum. Tentar definir blog como gênero é “impor como os blogs deveriam ser”.
Blogs não podem ser definidos como gêneros, pois não se associam a configuração contextual (cc) alguma. Por não ser um gênero, o blog não representa uma ação social específica (a variável campo), não apresenta um propósito comunicativo. É uma tecnologia de agrupamento de textos e arquivos digitais, a serviço de uma pessoa ou de um grupo, e atende aos propósitos destas pessoas.
Faz-se necessário ainda muito estudo a respeito, mas já conseguimos visualizar Blogs unicamente como aplicativos (programas), com entornos virtuais específicos, nos quais postagens são produzidas e condicionadas.
Antes de prosseguir, precisamos esclarecer algo a respeito dos programas. Um programa é uma construção virtual, em determinada linguagem de computação, que tem finalidades específicas. Um jogo de vídeo-game é um programa, assim como um processador de textos, mas também os aplicativos o são, de modo que programas podem ser abertos em/por navegadores web. Resumindo e simplificando, navegadores, como o Internet Explorer, podem abrir aplicativos, podem abrir programas de computador. Todo programa de computador voltado à produção de textos possui um entorno virtual[4].
A ciência deste fato é importante pelo seguinte motivo: muitos dos entes digitais estudados (chats, blogs, fóruns e outros) são produzidos/lidos em navegadores web. Quando se conversa em um chat, por exemplo, como o da UOL, está-se usando um programa de computador, um aplicativo aberto por um navegador web para que a conversação possa acontecer. É imperativo não pensar que usamos programas apenas ao produzir textos no Microsoft Word, no MSN etc. Ao acessar o site de um servidor de blogs e escrever uma postagem, também se está utilizando um aplicativo, um programa de computador. Podemos afirmar que todo texto produzido num computador vai ser, deste modo, condicionado por um entorno virtual. Devemos, destarte, estudar estes entornos para compreender os gêneros digitais, e não somente estudar os artefatos linguísticos já produzidos.
A análise de uma ferramenta tecnológica como o blog, para ser completa, precisa considerar de igual modo os programas, e não apenas o material que é visualizado nos navegadores web. Tendo conhecimento dos programas, professores e pesquisadores podem entender como o blog funciona em sua completude, podem compreender o porquê de determinadas configurações e escolhas tomadas na confecção dos blogs e de seus textos. Um trabalho neste sentido, considerando os programas para a elaboração de blogs, está sendo desenvolvido por nós no Doutorado.
4. O conceito de affordances na defesa de blog enquanto tecnologia
Há mais argumentos a favor da não-genericidade dos blogs. Miller (2009) defende que blogs são um conjunto de affordances, em termos simples, configurações de possibilidades. O conceito foi trazido da psicologia e funciona para descrever a interação de um animal com seu ambiente natural. Para exemplificar melhor, a autora nos leva a pensar em certos ambientes naturais que fornecem materiais e localizações para que pássaros construam ninhos. Porém, certas affordances, certas potencialidades e restrições, vão permitir que apenas alguns tipos de ninhos sejam construídos, e não outros.
No que diz respeito à Internet, assim se posiciona Miller:
No contexto da Internet, affordances tomam a forma não de propriedades materiais ou de nichos ecológicos, mas de propriedades de formação e interação que podem servir a certos usos cognitivos e comunicativos particulares. Os links, a distribuição instantânea, a indexação e busca, a interatividade e outros traços da Internet constituem affordances que diferem das da mídia impressa, e uma configuração específica de affordances é o que constitui o blog como distinto de outras mídias da Internet (MILLER, 2009, p. 115).
A configuração específica de affordances que constitui o blog nada mais é, sob nosso ponto de vista, do que as potencialidades e restrições que circundam tal programa/tecnologia, como o próprio entorno virtual, a facilidade de criação dos blogs, o baixo custo, as tags, a fácil indexação nos mecanismos de busca, os links e outros. Por isso, várias poderiam ser as razões que nos levariam a adotar a tecnologia blog como mecanismo de interação, de comunicação. Miller não sugere que o meio cria a exigência, mas afirma que as affordances dos blogs:
[...] levaram muitas pessoas a acreditar que realmente queriam criar diários públicos online, uma conclusão a que poucas pessoas teriam chegado com a ausência da tecnologia” (MILLER, 2009, p.115)
Uma nota se mostra bastante oportuna neste momento. O mais famoso serviço de microblogging, o Twitter, entrou no ar, em 2006, com a seguinte frase no topo da página: “O que você está fazendo agora?”. Além da frase-slogan, o Twitter “instigava”, de outras formas, os usuários a usar sua ferramenta para comunicar o que faziam, como pode ser percebido na figura 04. Entretanto, os internautas criaram usos diversos para o Twitter. Muitos dos recentes acontecimentos mundiais foram divulgados no Twitter primeiro. A primeira imagem do avião da US Airways que caiu no rio Hudson, no início do ano, apareceu no servidor de microblogging. A morte de Michael Jackson foi lamentada no Twitter antes que as grandes redes de televisão se manifestassem a respeito. Alguns programas da MTV são pensados e produzidos via Twitter.
Em 2009, o Twitter reformulou seu site e retirou a frase-slogan do ar. Como pode ser visualizado na figura 05, temos outra chamada no site, ela diz: “Compartilhe e descubra o que está acontecendo agora, em qualquer lugar do mundo”. Sobre a caixa de pesquisa, temos a sequência: “Veja o que as pessoas estão dizendo sobre...”.

Figura 04 – Fragmento do site Twitter. Disponível em: <http://www.twitter.com>. Acesso em: 20/05/2009
É notório que os administradores do Twitter perceberam que seus usuários não utilizavam o serviço apenas para comunicar o que faziam (eg. “fui jogar futebol”, “assiti ao filme tal”, “estou escrevendo um conto”). Providenciaram, deste modo, uma adaptação do site aos usuários. Trouxemos este exemplo para reforçar o defendido por Miller, que as affordances dos blogs levaram muitas pessoas a acreditar que blogs eram diários públicos. Os próprios serviços de blogs vendiam a ideia de que serviam para isso. Os servidores instigavam os possíveis blogueiros a criarem diários virtuais. Durante um tempo, muitos criaram os seus, e ainda existem alguns blogs diários, entretanto, este é apenas um uso para a tecnologia blog. Foi esse uso, deveras comum por um determinado tempo, que gerou (con-)fusão entre a tecnologia blog e o gênero diário.

Figura 05 – Fragmento do site Twitter. Disponível em: <www.twitter.com>. Acesso em: 06/08/2009
Quando a tecnologia do blog se espraiou e tornou-se famosa pelo seu uso como diário, levou vários estudiosos (inclusive o autor deste texto), naquele momento do Estado da Arte, a definir blogs como gêneros textuais.
Parece claro agora que o blog é uma tecnologia, um meio, uma constelação de affordances ― e não um gênero. Quando a tecnologia do blog tornou-se amplamente disponível, ele foi percebido como resposta a uma exigência que surgiu no fim dos anos 1990, até ajudando a cristalizar essa exigência, e o blog pessoal se multiplicou na consciência cultural. O gênero e o meio, a ação social e sua instrumentalidade cabiam tão bem que pareciam ser contérminos, e foi fácil assim confundir um com o outro ― assim como nós o confundimos. (MILLER, 2009, p. 117)
A exigência no fim dos anos 1990, à qual Miller se refere, é a de uma época de voyeurismo mediado, de celebridades instantâneas e de desafios às fronteiras do público e do privado. A tecnologia do blog mostrou-se eficiente para atender a esta demanda antropológica, e, como vimos, os próprios servidores de blog incentivavam o uso como diário. Contudo, esperamos que tenha ficado claro que os blogs não representam esta ou aquela ação social. Hoje os blogs são usados por instituições (escolas, universidades, ONGs, e inclusive por jornais), por jornalistas amadores e profissionais (onde podem escrever sem as amarras de uma instituição), por políticos, por adolescentes e outros, atendendo aos mais diversos atos sociais.
Blogs são aplicativos para o agrupamento de arquivos digitais (textos, fotos, vídeos, músicas e outros) em ordem cronologicamente inversa, que possuem entornos virtuais específicos, e produzem, como forma de saída, páginas da web. Tais páginas demonstram geralmente uma organização estrutural recorrente (a presença de um perfil dos autores, de links para sites externos, de links para comentários etc.).
Se é imperativo existir uma comparação envolvendo blogs, acreditamos ser mais interessante comparar blogs a fichários. Meninas usam fichários, daqueles com pequenos invólucros de plástico, para guardar papéis de carta; outros usam os invólucros para arquivar documentos de uma empresa; em cursos de idiomas, professores utilizam os fichários para guardar atividades de aula e uma série infinita de textos, dos mais diversos gêneros. Note que “fichário” não é um gênero textual, é uma tecnologia. Blogs são como fichários públicos que expõem material digital. Os autores arquivam seus textos, suas imagens, suas músicas em um programa de computador elaborado para 1. fazer deste arquivamento uma simples tarefa e para 2. tornar tais arquivos acessíveis a pessoas na Rede Mundial de Computadores.
Considerações finais
Por que se mostra importante a discussão sobre o status do blog como gênero textual ou não-gênero? Por dois motivos:
1. A definição de blog como gênero atribui à tecnologia alguns traços genéricos (do contrário, não teríamos um gênero). Destarte, o aplicativo blog passa a ter, por exemplo, conteúdo temático recorrente, construção composicional, estilo verbal etc. Ao trabalhar com este “gênero” em sala de aula, o professor precisa delimitar tais traços. Temos um primeiro problema: quais são estes traços? Qual o estilo verbal recorrente nas postagens de blog? Há blogs extremamente formais e há outros desleixadamente informais. Seguindo: qual a construção composicional recorrente? Há blogs gigantescos, que expõem capítulos de livro, enormes narrativas, tratados; mas há blogs expondo haicais, pensamentos, provérbios. A delimitação fica ainda mais estorvada quando o professor se depara com blogs praticamente desprovidos de textos escritos (eg. Fotoblogs, podcasts e outros). Falar de conteúdo temático chega a ser desnecessário, visto que blogs tangem qualquer assunto e que propagam qualquer discurso. Mesmo que o professor consiga delimitar traços, é gritante que haverá uma restrição, que os alunos serão apresentados a uma tecnologia tosada, a um aplicativo sem seu real poder de uso.
2. São várias, e novas, as tecnologias para a Comunicação Mediada por Computadores. De modo que, certamente, serão denominados “gêneros” outros programas de computador. Teremos uma bola de neve; surge uma tecnologia, surge um gênero. Talvez esteja na hora de sairmos do modismo, de assumirmos que nem todas as coisas precisam receber o rótulo de gênero.
A discussão sobre a genericidade dos blogs esta substancialmente ligada à educação. Se cometermos equívocos neste momento (e nos incluímos entre os que podem se equivocar), estamos fadados a perpetuar os deslizes nas análises dos “gêneros” do porvir. O debate sobre a genericidade dos “entes digitais” está, em nossa opinião, apenas começando, e é extremamente relevante.
No que concerne aos professores, momentaneamente, seria interessante escolher um possível uso do blog e trabalhar a tecnologia desta maneira. Por exemplo, professores podem adotar o blog como uma espécie de “boletim”, um canal para um grêmio estudantil. A partir deste momento, podem ser discutidas as características genéricas (conteúdo temático, estilo, propósito comunicativo, aspecto composicional e outros). É imperativo lembrar, porém, que estes são traços dos gêneros irmanados que serão armazenados no aplicativo blog, e que não são traços do blog. Os estudantes precisam compreender (se é que já não compreendem) que o uso como “boletim” é apenas um dos diversos usos que podem ser dados ao aplicativo. Se o grêmio for desfeito, o mesmo blog poderá assumir outras atribuições, e receber/expor outros gêneros de texto. O professor pode utilizar o blog para disponibilizar, por exemplo, conteúdo extra sobre suas aulas, e disponibilizar o espaço para discussões outras.
Referências Bibliográficas:
AMARAL, Adriana et al (orgs.) Blogs.com: estudos sobre blogs e comunicação. Momento Editorial: São Paulo. 2009.
BAKHTIN, Mikhail. O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária. In: Questões de literatura e de estética – A teoria do romance. São Paulo: Hucitec. p. 13-70. (1993) [1924].
_____. 1992 [1953]. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes.
FELIS, Cláudia C. Gatti; NASCIMENTO, Elvira Lopes. Blog: um gênero digital para o processo de multiletramento. In: Entretexto. Revista do Programa de Pós-Graduação em estudos da Linguagem. Universidade Estadual de Londrina. Vol 5. 2005.
FUMERO, Antonio. El abecé del universo blog. Disponível em: <http://www.campusred.net/telos/articulocuaderno.asp?idarticulo=1&rev=65>. Acesso em 04/09/2008.
KOMESU, Fabiana Cristina. Blogs e as práticas de escrita sobre si na internet, In: MARCUSCHI, L. Antônio, XAVIER, A. Carlos (orgs). Hipertexto e Gêneros Digitais. Rio de Janeiro: Lucerna. 2005.
KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2003.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais: definições e funcionalidade. In DIONÍSIO, A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (2002). Gêneros textuais & ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, p. 19-36. 2002.
MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos. Hipertexto e Gêneros Digitais. 2.ed. Rio de Janeiro: Lucerna. 2005.
MILLER, Carolyn. Gênero textual, agência e tecnologia. Recife: UFPE. 2009.
MOTTA-ROTH, D; HEBERLE, V. M. O conceito de "estrutura potencial do gênero" de Ruqayia Hasan. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D.. (Org.). Gêneros: teorias, métodos e debates. 2 ed. São Paulo, SP: Parábola. 2007.
PRIMO, Alex. Blogs e seus gêneros: Avaliação estatística dos 50 blogs mais populares em língua portuguesa. In: XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação - Intercom 2008, Natal. Anais. 2008.
ROJO, Roxane. 2007. Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Org.). Gêneros: teorias, métodos e debates. 2 ed. São Paulo, SP: Parábola.
YUS, Francisco. Towards a pragmatics of weblogs. In: Pragmática, discurso y sociedad (Quaderns de Filologia XII). Eds. P. Bou Franch, A.E. Sopeña Balordi and A. Briz Gómez. Valencia (Spain): University of Valencia, 15-33. 2007.
[1] Cleber Pacheco GUIMARÃES, doutorando em Lingüística pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Este trabalho foi realizado com o apoio do CNPq.
E-mail: cleber.guimaraes@gmail.com
[2] Para obter mais exemplos de configurações contextuais, ver Motta-Roth & Heberle (2007).
[3] Autores como os que estão presentes na obra “Blogs.com: estudos sobre blogs e comunicação” de AMARAL et al (orgs.) (2009), além de Fumero (2008), Primo (2008), Miller (2009) e outros, vão além das ― ou desconsideram totalmente ― definições que tratam blogs como diários virtuais.
[4] A terminologia entorno virtual é advinda de Marcuschi (2005).